ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO
O Acompanhamento Terapêutico

Histórico
O Acompanhamento Terapêutico tem como precursores o movimento antipsiquiátrico e a psicoterapia institucional que ocorreram a partir da década de 50 na Europa e nos Estados Unidos. Os principais expoentes desse movimento foram Laing e Cooper, na Inglaterra; Basaglia, na Itália; Oury, na França, Tosquelles na Espanha e Szazs, nos EUA. Na América Latina o AT parece ter surgido no final da década de 60, em Buenos Aires. Na Argentina, muitos psicanalistas estiveram ligados aos hospitais psiquiátricos. Dessa forma, criaram novas funções para os agentes de saúde mental denominadas auxiliares psiquiátricos e, em outros lugares, atendentes terapêuticos. As funções desses agentes foram o embrião daquilo que mais tarde foi denominado de amigo qualificado e posteriormente de acompanhante terapêutico - at*.

Isso ocorreu conforme o trabalho foi ocorrendo mais na rua, na casa do paciente, e deixando a instituição psiquiátrica. Esse processo teve suas influências no Brasil. A idéia do auxiliar psiquiátrico passou por Porto Alegre (Clínica Pinel), e, por sua vez, chegou às comunidades terapêuticas do Rio de Janeiro, principalmente à Clinica Vila Pinheiros. No final da década de 70, com o declínio e fechamento das comunidades terapêuticas, os auxiliares psiquiátricos continuaram a ser solicitados por terapeutas e familiares que buscavam uma alternativa à internação. Este trabalho foi se solidificando, e hoje eles se denominam acompanhantes psicoterapêuticos. Faz-se necessário esclarecer que essa atividade, em geral, era exercida por estudantes de psicologia, ciências sociais, medicina, etc. Gradualmente, o AT foi se constituindo como um recurso a mais no tratamento de pessoas em crises psicóticas. Dada a complexidade dos fenômenos dessas crises e o volume de angústia mobilizada nos pacientes e em suas famílias, percebeu-se que as terapias tradicionais – individual, grupal e familiar – além dos remédios, não eram suficientes, em determinados casos. À medida em que esta atividade (AT) era cada vez mais requisitada, foi havendo uma especialização do acompanhante terapêutico. Não só estudantes, mas também psicólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais passaram a trabalhar como acompanhantes.

Histórico da Equipe
O surgimento do acompanhamento terapêutico em São Paulo teve características diferentes, ao menos no que diz respeito à equipe de AT's do Instituto "A CASA". A idéia foi trazida pela psicanalista argentina Beatriz Aguirre que fazia parte do grupo que implantou o Hospital-Dia em 1979. Essa função passou a ser utilizada em 1981. Naquela época, e por alguns anos mais, denominávamos o agente desse trabalho como "amigo qualificado". Sua tarefa era basicamente estar junto do paciente nos momentos em que este não estava nas atividades do Hospital-Dia. Alguns pacientes, e/ou respectivas famílias, necessitavam de um apoio nos horários em que a Instituição não funcionava, principalmente nos finais de semana. Após alguns anos, observou-se que o termo "acompanhante terapêutico" se adequava melhor àquilo que estava sendo feito, além de evitar algumas confusões. O termo Acompanhamento Terapêutico expressava uma função que implicava uma ação, uma intervenção junto a um outro sujeito. Por outro lado, o uso da palavra "amigo" gerava confusões, na medida em que dificultava a discriminação e a caracterização do vínculo entre o paciente e esse profissional. Para maiores informações a respeito tanto da história do AT quanto da Equipe de AT do Instituto "A CASA", favor consultar os dois livros que existem sobre o tema, listados no tópico sobre as publicações.

Princípios de Trabalho
O Acompanhamento Terapêutico está atrelado, desde sua origem, a uma posição de não confinamento, de busca de alternativas para sujeitos cuja existência se encontra, por motivos diversos, marcada duramente por alguma forma de clausura. Por confinamento entendemos desde a "concretude" dos muros psiquiátricos naquilo que podem determinar um destino asilar até a vivência "terrorífica" na qual o sujeito se vê precipitado numa existência sem contornos; não confinamento significa uma multiplicidade de atitudes que possam servir de sinalizações, de guias, de mapas para que o sujeito possa ir além do muro, obtendo algum retorno que lhe ajude a constituir um contorno de território. Isso só é possível se entendermos, primeiramente, que cada sujeito é um, singular tanto naquilo que está sendo, como naquilo que pode advir. Isso significa que só podemos conhecê-lo no contato com ele, nos encontros, nas possíveis montagens que possam se estabelecer a partir desses encontros. Esses encontros são geralmente marcados por aquilo que denominamos como um fazer, ou seja, uma ação que promova algum tipo de movimento, de abertura, de entrada, de contato. Isso se dá de diversas maneiras, seja realizando algo que o sujeito esteja querendo (tomar um café, comprar cigarros, revistas ou um kit para montar aeroplanos em miniatura); algo que o sujeito esteja necessitando (ir ao oculista, comprar roupas, limpar a casa), ou ainda algo que percebemos ser um diferencial dentro do contexto no qual ele vive, por exemplo com relação a uma mãe invasiva, como ajudar a montar algum tipo de privacidade (bater na porta do quarto antes de entrar, reivindicar ou providenciar as chaves do quarto, sustentar que o sujeito possa tomar banho sozinho e outras). Busca-se com isso fazer o trabalho artesanal de tessitura que permita a conexão do sujeito com os coletivos da cidade.

Funcionamento
A equipe de AT's do Hospital-Dia "A CASA" oferece diversas modalidades de intervenção, que é arquitetada de acordo com a especificidade da situação. Consideram-se as características do caso encaminhado para que possam ser pensados os dispositivos clínicos mais adequados a serem oferecidos.

Sobre as modalidades de AT
Numa situação de crise aguda, o AT é utilizado "full time", modalidade denominada Homecare em Saúde Mental. A equipe promove um revezamento entre os AT's, para que o paciente seja assistido durante todo esse período crítico. Dessa forma, é oferecido suporte à família e ao paciente, como alternativa à internação psiquiátrica. Quando ela é necessária, o acompanhamento pode ocorrer dentro da instituição. A modalidade de AT utilizada com maior freqüência é a de duas a três horas por encontro, variando o número de encontros por semana. Essa modalidade é, em geral, utilizada fora das crises agudas, na perspectiva da construção de um cotidiano não enclausurado. Para tanto, o trabalho é realizado com pacientes que apresentam potencial para um "fazer" específico que, no momento, se encontra impedido. A idéia é a de que o acompanhante seja um catalisador desse fazer. Paralelamente, a família do paciente vai sendo preparada para essa intervenção, pois assim encontrará recursos para suportar o processo e o desenvolvimento do paciente. Vale ressaltar que a equipe de AT está inserida numa rede de tratamentos que dispõe, entre outros, de atendimentos familiares e de acompanhamento psiquiátrico. Há também as viagens, que em geral são o resultado concreto do processo de crescimento e autonomia do paciente. O AT aí acompanha o sujeito numa experiência de relacionamento e descontração, auxiliando-o a viver como tal.









 









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